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Viage com elas!

Migração

Muitas aves percorrem voando, longas distâncias entre diversas partes do mundo. Este tipo de viagem chama-se Migração. As aves dirigem-se no inverno para locais quentes, onde encontrarão alimentos. Na primavera voltam ao ponto de partida para fazerem o ninho e se reproduzirem, É freqüente voltarem ao mesmo local de onde tinham imigrado. A maioria das espécies tem rotas estabelecidas para a migração e viaja mais ou menos dentro de um horário, chegando e desaparecendo de acordo com o calendário. Algumas migram perto do solo e outras em altitudes de até 900 ou 1500 metros, mas raramente mais alto.

Apesar de os indivíduos poderem voar de 50 a 80 quilômetros por hora, para se alimentar, são ultrapassados por outros, depois prosseguem, por isso à frente de migração progride lentamente, percorrendo cerca de 40 quilômetros por dia. Durante a migração, algumas aves seguem marcas terrestres obvias, costas, rios, cadeias de montanhas, etc, mas outras passam por mares ou terras sem características direcionais. Muitas aprendem rapidamente e lembram de aspectos topográficos. Migração, reprodução e muda são fases do ciclo anual das aves, todas reguladas pelo sistema neuroendócrino.

As aves migradoras orientam-se sobretudo pelo sol (migração diurna), pelas estrelas (migração noturna) e pelo campo magnético terrestre (que inclui os dois tipos de migrações citados). Algumas também recorrem a referências na paisagem. Só a título de curiosidade, na antiga Grécia pensava-se que as andorinhas se enterravam na lama para passarem o Inverno.
Nem todas as aves migradoras nos visitam nos meses quentes para criarem os filhos, algumas espécies de regiões mais setentrionais escolhem o nosso país, e outros da região mediterrânica, para passarem o inverno. Aqui no interior, os casos mais conhecidos (infelizmente por razões que se prendem com a sua destruição massiva e não com a sua conservação) são os pombos-torcazes (Columba palumbus), os tordos (Turdus spp.) e os abibes ou avesfrias (Vanellus vanellus). As zonas úmidas junto ao litoral enchem-se de limícolas e de patos. Os montados de azinho e de sobro no interior da Península Ibérica têm o privilegio de acolherem os grous (Grus grus) e os gansos-bravos (Anser spp.). Até as espécies residentes, como por exemplo as águias-de-asa-redonda (Buteo buteo), os açores (Accipiter gentilis) e os galeirões (Fulica atra), vêm os seus contingentes aumentarem com a visita dos seus parentes nórdicos. Os corvos-marinhos-de-faces-brancas (Phalacrocorax carbo), por seu turno, deslocam-se da costa, seguindo os principais rios, para virem hibernar em águas interiores.
Há ainda os que são considerados migradores, abandonando-nos quando o frio se instala, como é o caso das poupas e das cegonhas, mas que contam com uma, mesmo que minoritária, população residente. Outros, como os grifos, que são animais sedentários, podem fazer migrações (sobretudo os indivíduos jovens) até ao Norte de África.
A versatibilidade e a relatividade dos fenômenos naturais é um fator a ter em atenção, ou não fosse a variabilidade a pedra de toque da evolução, e podem dar-nos importantes indicações, por exemplo, das mudanças climáticas de que tanto se fala atualmente.
Certos pássaros migradores parecem utilizar o campo magnético terrestre para saber onde devem pousar para se alimentar, antes de uma longa travessia do mar ou do deserto, afirma uma equipa de cientistas suecos, num estudo publicado na revista Nature.
Thord Fransson, da Universidade de Estocolmo, baseia a sua hipótese em experiências de laboratório. A equipa expôs rouxinóis (Luscinia luscinia) à ação de ímanes que recriavam as linhas dos campos magnéticos terrestres em zonas que as aves atravessavam na sua migração da Suécia para África.

Segredos das longas viagens

Os navegadores portugueses sabiam, através da prática adquirida com as suas viagens, que algumas das aves que viam durante o Verão em Portugal passavam o Inverno em África
A migração das aves é um fenômeno complexo e fascinante. É a altura de se falar dele, pois estamos no final do Verão, início do Outono. O desaparecimento de algumas espécies em determinadas épocas do ano e o seu posterior reaparecimento noutras foram, desde sempre, motivo de admiração e interrogação.
Para os sábios antigos, a hibernação ou a geração espontânea seriam as únicas explicações plausíveis. Essas idéias perduraram durante séculos.
Na época das descobertas, numa altura em que na Europa se acreditava ainda nisso, já os navegadores portugueses sabiam, através do conhecimento prático adquirido com as suas viagens, que algumas das aves que viam durante o Verão em Portugal passavam o Inverno em África. Na Crônica da Guiné, escrita por Gomes Eanes de Zurara no século XV, encontramos um testemunho espantoso dessa sabedoria empírica. Ao descrever as novas terras africanas, refere-se assim o autor às aves que as povoavam: "E a esta terra passam geralmente todas as aves que por certos tempos aparecem em este nosso reino... e muitas ha que por friura do inverno se partem desta terra e vão buscar aquela, por causa da sua quentura... e assim outras aves que fazem naquela terra sua criação, e depois veem guarecer a esta..."
A ciência moderna, essencialmente através do recurso à anilhagem, permitiu esclarecer pelo menos parte do mistério. Sabe-se hoje que muitas espécies de aves empreendem deslocações sazonais entre as áreas onde se reproduzem e outras onde passam o resto do ano.
O desenvolvimento do conhecimento científico sobre as migrações permitiu descobrir que o fator determinante que leva as aves a deslocarem-se é a busca de melhores fontes de alimento. Acredita-se também que o impulso que desencadeia o início da migração é determinado, em grande parte, pela intensidade e duração da luz solar e, possivelmente, pelas condições atmosféricas. Com base na anilhagem e em diversas experiências, sabe-se de que forma as aves se orientam e quais as principais rotas que seguem na sua migração.
Muitas espécies de aves navegam utilizando as estrelas, o Sol ou o campo magnético terrestre, conhecimentos adquiridos de forma hereditária. Outras navegam à vista, orientando-se pelos acidentes do terreno.
No caso da Europa, uma boa parte das espécies que criam nas regiões mais setentrionais desloca-se para sul durante a estação fria. Muitas passam o Inverno ao longo da bacia mediterrânica. Mas outras há que procuram paragens muito mais distantes, dirigindo-se para a África tropical (também chamada África subsariana).

Estratégias para redução de esforço

As aves migratórias desenvolveram várias estratégias adaptativas que lhes permitem efetuar esses grandes percursos. Algumas espécies migram de noite, evitando assim os predadores. Outras acumulam reservas de gordura que lhes permitem efetuar longos trajetos sem paragens. Outras ainda percorrem curtas distâncias diárias, parando com freqüência para se alimentarem. As aves de rapina e outras espécies de grande envergadura, como as cegonhas, tiram partido das correntes térmicas ascendentes que se formam sobre as massas continentais e que lhes permitem deslocar-se gastando pouca energia. Pela sua espetacularidade, a migração destas últimas merece algum destaque.
As aves planadoras, como são chamadas pelo fato de recorrerem essencialmente a esse tipo de vôo, utilizam, tal como foi já referido, as correntes de ar ascendentes que se formam quando o ar frio da atmosfera aquece em contacto com a superfície terrestre exposta ao sol, tornando-se mais leve e subindo.
A dependência da força impulsora criada pelo ar quente varia de espécie para espécie e está relacionada com a sua superfície alar. Assim, aves com uma grande superfície de asa, como é o caso dos abutres ou das cegonhas, estão melhor apetrechadas para a utilizar e, por isso, recorrem muito mais ao vôo planado do que espécies que possuem asas de dimensões mais reduzidas, caso dos gaviões ou falcões.
Esta técnica de deslocação permite às aves percorrerem grandes distâncias com um esforço mínimo. Tem, no entanto, um pequeno inconveniente: sobre o mar, a intensidade das correntes térmicas é bastante menor, devido ao fato de a água ter uma inércia maior do que a terra relativamente às variações térmicas. Para as aves planadoras que se deslocam para África, e que têm de cruzar o mar Mediterrâneo, este fato coloca um problema complicado. Para algumas espécies, as poucas dezenas de quilômetros que separam a Europa de África poderiam assim constituir uma barreira quase intransponível. Para ultrapassar essa dificuldade, as aves planadoras convergem nos locais onde a distância entre os dois continentes é menor.

Gibraltar, Bósforo, Sicília e Sagres são passagens

Os estreitos de Gibraltar e do Bósforo, na Turquia, são os dois locais mais importantes da Europa para a migração outonal das planadoras. No primeiro caso, chegaram já a ser contadas cerca de 189 mil aves, enquanto no segundo o número máximo estimado atingiu as 76 mil. Outras rotas secundárias são: o chamado corredor do Mediterrâneo central, entre a Sicília e o cabo Bon, na Tunísia, e a região de Sagres, em Portugal.
Em Sagres, os estudos sobre a migração outonal de aves planadoras começaram em 1990. De então para cá foram organizadas cinco campanhas de monitorização, que envolveram não só a contagem das aves em passagem mas também a captura e marcação de alguns exemplares com anilhas. Os dados até agora obtidos permitem saber que todos os anos migram através de Sagres entre mil e duas mil aves planadoras, tendo até agora sido detectadas 29 espécies diferentes. Uma percentagem considerável destas aves será provavelmente de origem ibérica, mas algumas provêm também do Norte da Europa, fato comprovado em 1995 com a captura de um peneireiro (Falco tinnunculus) que tinha sido anilhado na Suécia. As espécies mais abundantes são a águia-calçada (Hieraaetus pennatus), a águia-cobreira (Circaetus gallicus), o milhafre-preto (Milvus migrans) e o gavião (Accipiter nisus). Uma parte significativa do número de aves observadas será possivelmente constituída por juvenis do ano, ou seja, aves que efetuam a sua primeira viagem e que, por isso, terão mais dificuldade em encontrar o rumo mais conveniente. Pensa-se que a esmagadora maioria das aves que chegam até à região reorientar-se-á aí, convergindo depois para Gibraltar.
O volume de informação recolhido é já considerável, mas algumas questões permanecem ainda em aberto ou necessitam de mais esclarecimentos. Quais os padrões de circulação na zona? Qual a influência dos fatores meteorológicos na ocorrência de aves? Qual o tempo de permanência das aves na região?
Procurar a resposta para estas e outras perguntas constitui certamente um desafio  para os próximos anos.

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